O iPad, a Apple e a cybercultura

O objetivo deste post não é analisar o iPad do ponto de vista tecnológico, mas de explorar o impacto cultural de um dispositivo que consegue tangibilizar e personificar a cybercultura.

A Apple é uma das marcas mais valiosas do mundo. Ter algo da Apple é sinônimo de ser cool, diferente, moderno e up to date. Por mais que o iPad seja basicamente um iPod Touch gigante, o imaginário coletivo vê no dispositivo muito mais do que isso: os consumidores que fazem fila nas lojas da Apple para comprar um iPad ficam esperando para ter o futuro nas mãos.

O iPad divide opiniões: ame-o ou deixe-o, porque ele prega a abolição total e definitiva do mouse, baseada nas maravilhosas patentes de tela capacitiva registradas pela Apple. Steve não fez um, mas 4 grandes Jobs: iMac, iPhone, iPod e iPad.

Mas o que faz com que consumidores esperem na fila para ter um iPad? Seria diversão? Sem dúvida, a Apple fomentou e elevou ao patamar da relevância uma indústria vibrante, que cresce em progressões geométricas: a dos aplicativos. A Apple informou que 150 mil aplicativos do iPhone funcionam no iPad e, posso arriscar, esta pode ser a melhor e maior aplicação do iPad, considerando que a Apple deve colocar à disposição dos consumidores, de cara, quase mil aplicativos desenvolvidos especialmente para a “telona” do aparelho. Então por que os consumidores comprariam um? Para terem entretenimento? Ou para terem companhia? Talvez as pessoas comprem um iPad para realizar, de qualquer lugar, o que elas têm realmente que fazer.

Eu sempre defendi a idéia de que tudo o que for passível de digitalização o será! E já fui bastante criticado por isso. No entanto, não arredo o pé dessa idéia e o iPad está aí para comprovar isso tudo. E pouco importa se a bateria dura mais de 10 horas ou se o leitor de textos do Kindle funciona melhor no sol. Isso tudo está se tornando commodity e não mais diferencial. Para a casta dos alucinados por tecnologia, qualquer novo dispositivo sempre terá melhorias. Para a grande maioria dos mortais, o iPad não representa tecnologia. Ele representa liberdade, evolução, integração e reconhecimento social.

O lançamento do iPad cruza as fronteiras da tecnologia e chega mais fortemente à Antropologia. É lá, no território de Pierre Lévy, que o papo de longo prazo fica mais interessante. Tirando isso, estamos falando de uma placa de meia polegada, com vidro em cima e alumínio atrás. E comparado ao controle remoto, que já foi uma revolução um dia, os botões quase não existem.

Se a Publicidade questiona os limites e as métricas de suas duas grandes potências midiáticas, a TV e a Internet, imagine como o iPad pode literalmente estimular a fusão entre esses dois meios. Pense nos seus programas favoritos de TV em uma tela plana, wireless e bem fina carregados para onde você quiser. O iPad surge para inaugurar uma nova categoria de eletrônicos. Não é TV, não é laptop, não é celular. E mesmo se fosse tudo isso, você poderia comprar um laptop, um celular e uma TV por bem menos. Então por que fazem fila para comprar o iPad, mesmo sua tela registrando marcas gordurosas de dedo quando desligada? Por que o iPad é um produto que explora elementos aspiracionais do comportamento, não da tecnologia. Através dele as pessoas comuns consomem cultura digital, sejam fotos, email, páginas da Internet, música, livros, blogs… Estamos falando de social networking e da nova maneira de socialização trazida pela web.

Nos EUA, através de um acordo com a AT&T, a Apple vai colocar no mercado o modelo de iPad para celular. E isto é um grande fato, porque não há contratos ou multas. Isto pode significar uma revolução sobre o monopólio das operadoras, a partir do momento que você pode comprar um pacote de dados bom o suficiente (ou ilimitado) para acessar conteúdos digitais, quando, onde e como quiser, com a liberdade de cancelar ou voltar quando bem entender. Então por que os consumidores comprariam o iPad? Pela liberdade? Pelo respeito?

Poderíamos enumerar dezenas de pontos fortes e fracos do iPad, mas prefiro deixar esse tipo de análise para os experts no assunto. Prefiro focar no comportamento do consumidor e questionar que desafios a tecnologia enfrentará para produzir formatos de arquivos que sejam universais e que não dependam de conversão para funcionar aqui ou acolá. E formatos que sejam duradouros; ou que saiam quase ilesos da obsolescência. Cada vez mais, chamar a web de semântica torna-se uma questão semântica por si só e a cloud computing, a despeito dos bilhões investidos em tecnologia, prova ser a inteligência coletiva, humana e digitalizada, colocada à disposição de quem quiser ver, acessar e colaborar.

A Apple, bem maior que seu mero iPad – que será substituído logo mais – traz em seu DNA a cultura do mundo contemporâneo, da cultura digital e da vanguarda. No panteão dos deuses da cybercultura, aqui no Ocidente, a Apple pode ocupar o lugar de Zeus. Então, por que as pessoas comprariam um iPad? Talvez pelo simples fato de existir uma maçã, ainda que seja mordida, por trás disso tudo.

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Comments (6)

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Edmar Bulla. Edmar Bulla said: O iPad, a Apple e a cybercultura. Leia no #blogsulfurico http://migre.me/tzjZ […]

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    This post was mentioned on Twitter by edmarbulla: O iPad, a Apple e a cybercultura. Leia no #blogsulfurico http://migre.me/tzjZ

  3. Cris Bussab says:

    O lançamento do IPAD em janeiro, mostrou o pico mais alto de como tecnologia esta ficando inovadora e obsoleta ao mesmo tempo. Cheguei ao Brasil em 10/01/2010 com meu Kindle na mala, feliz da vida. Na mesma semana, sem mesmo ter ligado o Kindle e testado um mero livrinho nele, Jobs lançava o IPAD. God, meu Kindle ficou obsoleto sem mesmo ter sido ligado. A sensação de viver isso é inexplicável. Humpf! Resultado, o péssimo humor que isso gerou, deixou o pobre Kindle, 3 meses na gaveta. Só recebeu o dom de ser usado na semana passada para uma primeira experiência. Cool.
    Mesmo com tantos criticos acreditando que o IPAD era qualquer coisa, menos inovação, (um IPHONE gigante ou um Notebook menor), a realidade é uma só: Jobs cria e o mundo o segue. Seja por ser apaixonado por gadgets, para ser cool ou para usar a tecnologia a seu favor, as pessoas querem morder esta maçã.
    Há um tempo, costumava dizer que o dia em que a internet se tornasse tão automática como o ato de acender e apagar a luz, todas as barreiras estariam quebradas. Afinal, não paramos e pensamos quando colocamos o dedo no interruptor ou sobre a tecnologia que está por traz disso. Acendemos e apagamos, easy as that.
    Pois bem, acho que o IPAD é o primeiro passo. Um grande passo. Com ele, as pessoas simplesmente estão online, sem pensar em como se conectam, ou ligar fios, entender wi-fi e etc., conectam-se de forma automática e transparente, assim como acender a luz. Ooops, Jobs did it again!

    1. edmarbulla says:

      Cris, excelente comentário! Poderia ser um post! Obrigado pela contribuição com o blog e os leitores. Beijos, Bulla.

  4. Fabiano says:

    Genial, o arquivo. De fato, como disse a(o) Cris, o importante para as pessoas é ligar o aparelho e tudo funcionar!
    Isso me lembrou dos filmes de ficção científica: nunca aparecia a marca do computador da Enterprise, quanto de memória a Falcon Millenium tinha ou que sistema operacional a Super-máquina rodava! Tudo funcionava, simplesmente!
    É, Jobs é o cara!

    1. edmarbulla says:

      Exato. Essas invenções são muito mais Marketing e Cultura do que Tecnologia propriamente dita. Jobs é o cara! =)

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