Montanha-russa Brasil: da subida para a recuperação à surpresa da queda: parte 1

Por Edmar Bulla

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Reflexões sobre consumo e recomendações ao setor varejista

Começamos 2020 melhor que 2019! Menos inadimplentes, as famílias paulistanas se abriram mais ao consumo em janeiro. Para o varejo real, a expectativa de crescimento para o primeiro trimestre era de 1,01%, comparada com o primeiro e o quarto trimestres de 2019. Ao ano, era esperado um aumento de 5,23% nas vendas.

O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) subiu 6,5% em relação a dezembro de 2019 e o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) teve alta em fevereiro de 8,7%. Ainda em fevereiro, o faturamento nominal dos super e hipermercados cresceu 13,6%. Na visão ano contra ano, supermercados cresceram 23,1%.

De repente, surge o COVID-19, que compromete instantânea e dramaticamente o impulso de uma economia que vinha se recuperando, ainda que a passos lentos. O Banco Central libera R$ 135 bilhões de compulsórios para tentar estimular a economia via crédito e reduz a Selic ao menor nível da história, 4,25% ao ano – e com expectativas de redução para 3,75% até o final do ano. Varejo, indústria e serviços mais impactados no curto prazo serão aqueles que dependem de contato humano.

Bens menos essenciais ou vistos como supérfluos, como moda, cosméticos, luxo e bebidas sentirão mais o efeito da crise. Bens duráveis igualmente serão despriorizados, incluindo móveis, além do turismo e seus serviços acessórios, impactados pelas restrições de mobilidade.

Mesmo que o PIB do primeiro trimestre seja um pouco mais positivo, o crescimento do ano como um todo já está comprometido e seus impactos serão sentidos no início de 2021. Será mais um ano de voo de galinha baixo, bem baixo. Isto sem considerar as dificuldades maiores que teremos para aprovar reformas administrativas e tributárias. O câmbio mais alto impactará varejistas como Centauro, Renner e Hering, que dependem de importações da Ásia.

Varejistas de moda devem sofrer com a redução da circulação ou fechamento de shopping centers que, por sua vez, deverão inovar com centros digitais de compra. Além disso, uma maior disrupção da cadeia de suprimentos será sentida pelo setor de moda, já que boa parte de seu inventário depende de importação e 56% da produção vem da China. A quebra da cadeia de suprimentos também afetará os varejistas de eletro. Do ponto de vista de marketplace, varejistas como MELI e B2W, que dependem de sellers menores, serão igualmente impactados.

Um PIB menor afetará varejistas de consumo discricionário como Via Varejo, Magalu e B2W. A aversão ao risco e a redução ao crédito impactarão varejistas alicerçados na bandeira da acessibilidade. De outro lado, o aumento do on-line beneficiará quem está mais consolidado nesse canal.

A compra desesperada que temos acompanhado cria e criará padrões de compra e consumo bastante marcantes, que virão do aumento da curva de contaminação do vírus. O nosso maior medo, na condição de animais, é ficar sem comida. É uma questão que cria alertas em nosso cérebro e dispara estímulos de sobrevivência que estão codificados desde nossos ancestrais.

Sem dúvida, da noite para o dia, vamos repensar uma das nossas atividades mais básicas do dia a dia: comer. O COVID-19 nos fará refletir sobre como nos alimentamos, compramos alimentos, cozinhamos, consumimos fora de casa ou pedimos. A comida é o que impulsionará as maiores alterações de consumo no varejo nos próximos meses.


Acompanhe a continuação do artigo e saiba recomendações para o varejo antes, durante e após o COVID-19.


 

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