O preconceito sufoca a inovação

Por Edmar Bulla

No consenso não há inovação. Ela precisa do embate criativo das diferenças para criar mudanças. No final das contas, mudar é o que temos de mais permanente e a História nos lembra disso. Suetónio, historiador romano, relata que Cláudio foi o imperador mais fraco, porque só gostou de mulheres.

 

Há pouco mais de cem anos, praias eram destino prioritário de enfermos e pobres. No século XX, canhotos eram amarrados para aprender a escrever com a mão direita, resquícios da Inquisição. O descobridor da lobotomia, hoje crime, foi o Nobel de Medicina em 1949. E creia, até 1967, muitos estados norte-americanos proibiam casamento entre raças. A lei até mudou, mas o preconceito não.


Quem tem vaidade também não inova. A escrita, com 6 mil anos de idade, e a arte, uma jovem de 40 mil anos, são testemunhas da evolução. Ouço sempre que nunca houve mundo tão complexo. Pergunto: como julgar os que sobreviveram à última era glacial, os escravos vendidos como mercadoria, os judeus no Holocausto e mulheres ainda mutiladas na África? Millenials, o tempo voa! A onipotência de que a vida de hoje importa mais que outras é uma grande tolice.


Mudar nos coloca cara a cara com o tempo. Os gregos chamavam de chronos a sucessão dos dias e de kairós o tempo de qualidade. Assim ensinaram o ócio criativo a Domenico de Masi. E moldaram as ações dos que observam e dos que promovem transformações. De Heráclito a Sartre, a filosofia mostra que tudo flui e que precisamos nos inventar todos os dias. Fora tempo e espaço, dos quais somos reféns, criamos quase tudo, incluindo deuses, liquidificadores e internet.


A partir dessa consciência de nossos potenciais e limitações, tentamos desde sempre dar sentido à vida a evitar hecatombes. Somos criativos, mas nem tudo é inovação. Inovar pressupõe gerar valor, ou seja, algum analgésico às tensões humanas. Se for para as massas, ótimo. Se for lucrativo, melhor. Mas não é, como já li, novidade capaz de emitir notas fiscais. Sem valor agregado é coisa sem efeito e dura pouco.


Só inovamos quando dialogamos com as diferenças. Mas fomos educados a seguir a ordem e obedecer. Fomos criados para não falhar, ter uma família, um bom carro e uma casa grande – e bem decorada; para rir do albino, do obeso, do afeminado e para usar cuecas Calvin Klein. E quanto mais enchemos a vida de regras, mais nos fechamos ao desconhecido. Diagnóstico preciso: miopia com requintes de mediocridade.


Falhamos como espécie quando colocamos o diferente como atração. Aplaudimos sem perguntar, porque questionar está fora do script. Repetimos, seguimos a manada e depositamos aos céus o medo do amanhã, mas também nosso pacote de conquistas. A plateia em catarse é também vítima da inovação alheia. Quando deveríamos ser protagonistas do que hoje pode definir o futuro, como a Inteligência Artificial, a Biotecnologia e a energia nuclear, passamos por espectadores.


Estamos embriagados por fantasias de um mundo pós-verdade, pleno de clichês, charlatães e religião, ópio do povo. Com isso caminhamos para ser mais chronos e menos kairós. A imposição do que é normal tem nivelado a um patamar rasteiro a dignidade humana. Em laboratórios, a hipótese é validada pela regra e descarta-se a diferença, mas o 1% que falta para completar os 100 é o que deveria nos encantar. 


O diverso é que inspira, instiga e provoca. Nascemos diferentes de qualquer outro humano, mas vestimos ideologias e moldes caretas para tentar ser iguais a vida inteira. 


Para inovar de verdade, precisamos ser inconformados, subversivos e transgressores. Precisamos contemplar a humanidade e encarar, crer e viver, sem medo, aquilo que somos: uma constante e mutável exceção.


 

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