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Da atenção à conexão: o futuro da comunicação está na escuta

Por Edmar Bulla, fundador da Croma Consultoria

CAPA PENDENTE — AGUARDANDO IMAGEM DA CROMA

Qual seria o futuro da comunicação? Com certeza, esta é uma dúvida questionada diariamente por especialistas e críticos da área em todo o país. Em um cenário em que o consumidor rejeita interrupções e se esquiva da publicidade tradicional, o maior desafio das marcas não é mais ser ouvida, é ser merecedora da atenção. A era da propaganda baseada em volume excessivo e repetição chegou ao limite. O público tornou-se no decorrer dos anos mais crítico, seletivo e consciente de suas escolhas. Tentar “gritar mais alto” deixou de funcionar. A comunicação eficaz, hoje, exige inteligência cultural, sensibilidade humana e relevância contextual, elementos que só emergem da escuta ativa.

Durante a minha jornada profissional, tenho acompanhado com atenção esse movimento e o uso crescente, e por vezes superficial, de dados sintéticos para mapear comportamentos. Mas compreender o consumidor vai muito além dos números. É preciso entender suas motivações, emoções e aspirações. Por isso, aplicamos neurociência, etnografia e estudos comportamentais em larga escala para revelar oportunidades de conexão genuína entre pessoas e marcas. A publicidade eficaz não se mede pelo volume de mensagens, mas pelo valor que entrega; e valor é aquilo que toca, transforma e permanece.

Com a saturação digital e a fragmentação da atenção, cresce a demanda por experiências que extrapolam as telas. Os dados do estudo Sonhos Brasileiros, conduzido por nós, apontam “Saúde Integral” e “Resgate Ancestral” como as principais tendências do país, ambas ligadas ao equilíbrio, ao autocuidado e à reconexão humana. Essa busca por vínculos reais sinaliza que o tempo de exposição online tende à moderação voluntária. Marcas que entenderem isso não abandonarão o digital, mas integrá-lo-ão a jornadas híbridas: conveniência tecnológica somada a experiências presenciais significativas.

A Bússola de Marketing, outro estudo conduzido pela nossa equipe, mostra que o investimento em mídias digitais cresce junto com o live marketing. Essa convergência reflete o novo imperativo: a relevância nasce da integração entre o virtual e o real, entre dados e emoção. As marcas que souberem construir experiências úteis e sensoriais, ao mesmo tempo em que simplificam a vida das pessoas, terão mais chances de permanecer relevantes num mundo de atenção escassa.

O minimalismo digital reforça essa tendência. Ele representa uma mudança de mentalidade: menos volume, mais valor. Setores como moda, tecnologia e entretenimento já sentem os efeitos da escolha consciente, o consumidor prefere menos interação, mas com maior qualidade. Marcas precisarão entregar propósito, clareza e durabilidade, repensando o que oferecem e por que existem. O setor de serviços é o primeiro a sentir essa pressão; a indústria virá em seguida.

Nesse contexto, o branding se torna o novo protagonista. Se a publicidade perde espaço, o papel da marca ganha profundidade. Comunicar-se deixa de ser uma questão de campanhas e passa a ser um processo contínuo de construção de significado. O futuro das marcas está na criação de comunidades autênticas, onde propósito, coerência e pertencimento caminham juntos. E, nesse processo, tecnologias como a inteligência artificial serão aliadas indispensáveis, desde que usadas com ética, transparência e foco em construir experiências mais humanas. Conceitos emergentes como GEO (Generative Engine Optimization) e LEO (Language Engine Optimization) mostram que o domínio da linguagem será o novo território de diferenciação.

Nos próximos anos, veremos uma comunicação menos sobre anúncios e mais sobre conversas. Assistentes de voz, realidade aumentada e experiências físicas voltarão ao centro das estratégias, não como retrocesso, mas como avanço emocional. Inovação, portanto, não será apenas tecnológica, será relacional. O futuro da comunicação não pertence a quem fala mais, mas a quem escuta melhor. As marcas que entenderem isso deixarão de disputar atenção para conquistar relevância não como intrusas, mas como parceiras legítimas na jornada humana.

Edmar Bulla é fundador do Grupo Croma e atua há mais de duas décadas nas áreas de inovação, comportamento, estratégia e design de futuros. Consultor de marcas líderes globais, conecta dados, cultura e estratégia para compreender transformações do consumo e dos mercados.

Publicado em: outubro de 2025