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Do cancelamento à coerência: o que os realities revelam sobre marcas, reputação e consumo

Por Edmar Bulla, fundador da Croma Consultoria

CAPA PENDENTE — AGUARDANDO IMAGEM DA CROMA

Reality shows deixaram de ser apenas entretenimento. Tornaram-se espaços privilegiados para observar comportamento social em tempo real. Diante de milhões de espectadores, os participantes são avaliados continuamente por suas escolhas, discursos e contradições. Para as marcas, esse ambiente funciona como um laboratório público sobre reputação, coerência e confiança.

Ao longo da minha atuação em marketing e projetos de inovação, ficou claro que reputação não se constrói mais apenas por mensagens bem formuladas. Ela depende da capacidade de sustentar coerência quando há pressão e visibilidade. Nos realities, erros pontuais costumam ser assimilados quando acompanhados de aprendizado. O que provoca rejeição é a insistência em narrativas que não se sustentam na prática. No mercado, a lógica é a mesma.

O chamado “cancelamento” raramente nasce de um episódio isolado. Na maioria das vezes, ele resulta de um acúmulo de percepções. Surge quando o público identifica desalinhamento entre discurso e ação. Marcas que defendem diversidade, inclusão ou responsabilidade social, mas não traduzem esses valores em decisões internas como políticas de contratação, cultura organizacional ou investimentos, acabam transformando posicionamento em vulnerabilidade reputacional.

A associação com grandes formatos de entretenimento amplia ainda mais essa exposição. Quando uma empresa patrocina um reality, ela deixa de ser apenas anunciante. Passa a compartilhar o mesmo ambiente simbólico do programa. Conflitos, debates e valores exibidos ali acabam se conectando com quem financia aquela visibilidade. Nesse contexto, a neutralidade já não funciona como estratégia de proteção.

Há também uma mudança importante na forma como as pessoas se relacionam com marcas. Durante muito tempo, o consumo esteve associado à aspiração. Hoje cresce a busca por identificação. O público não espera marcas perfeitas, mas espera previsibilidade nos valores que elas defendem. Coerência deixou de ser apenas uma qualidade desejável e passou a ser um ativo estratégico diretamente ligado à confiança e à longevidade dos negócios.

Os realities também ajudam a evidenciar outra questão relevante. Diversidade não é um recurso estético. É uma construção organizacional. Não se resume à presença de diferentes perfis, mas envolve escuta, representatividade e distribuição real de oportunidades. Para as empresas, isso significa que o tema exige decisões estruturais. Muitas vezes essas decisões são menos visíveis do ponto de vista publicitário, mas são fundamentais para a consistência da marca.

No ambiente econômico atual, visibilidade e reputação caminham juntas. Quanto maior a exposição, maior a exigência por coerência. Posicionamento sem prática aumenta o risco de crise.

Talvez o principal aprendizado que emerge desses formatos seja simples. Relevância não se constrói apenas pela capacidade de falar mais alto. Ela depende da capacidade de sustentar valores quando o ambiente se torna imprevisível.

Edmar Bulla é fundador do Grupo Croma e atua há mais de duas décadas nas áreas de inovação, comportamento, estratégia e design de futuros. Consultor de marcas líderes globais, conecta dados, cultura e estratégia para compreender transformações do consumo e dos mercados.

Publicado em: fevereiro de 2026