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Home / Artigos / Qual é a finalidade de um órgão público ter um banco de dados, diante de um mundo, cuja governança política e econômica neoliberal possui empresas que mineralizam essas dados e os vendem para gerar lucro

Qual é a finalidade de um órgão público ter um banco de dados...

CAPA PENDENTE — AGUARDANDO IMAGEM DA CROMA

Qual o real papel de um banco de dados público num mundo onde dados viraram ouro? Em um cenário dominado por grandes corporações que tratam informações como mercadoria, lucrando com cada clique e preferência registrada, vale perguntar: a que serviço está o estado quanto à coleta de dados? Qual o propósito — e o potencial — de manter esse controle com o setor público?

Em um mundo no qual dados valem mais do que petróleo, o Brasil está construindo uma alternativa à lógica predatória das big techs. Enquanto gigantes como Google e Meta transformam informações pessoais em commodities, surge uma pergunta crucial: como o Estado pode usar essa mesma matéria-prima digital para gerar impacto social real?

O Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (Singed) representa muito mais que uma modernização butocrática. É uma resposta estratégica a três desafios urgentes: a Democratização da Informação, a qual, por meio de dados oficiais sobre saúde, educação e conomia, continuam sendo os únicos bens públicos verdadeiramente universais.

No Brasil, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) exemplifica essa missão desde a sua fundação em 1936, especialmente após 1985, quando assumiu a apuração do IPCA (Índice Nacional de Preços do Consumidor Amplo), tornando-se o bastião oficial da inflação brasileira. No dia 6 de julho, comemora-se o aniversário da instituição. Tal responsabilidade surgiu após períodos sombrios de manipulação de dados, como durante o regime militar em 1973, quando os índices de preços foram distorcidos para mascarar crises econômicas.

Enquanto algoritmos privados criam realidades paralelas (como mapas que ignoram favelas), o IBGE mantém o retrato fiel do Brasil real, inclusive daqueles que não geram valor comercial. O controle social da tecnologia é imprescindível. Após escândalos como o vazamento de 220 milhões de CPFs, o Singed propõe um novo paradigma com dados armazenados em uma numvem soberana; anonimização rigorosa seguindo a LGPD; a produção de algoritmos auditáveis pela sociedade civil.

O modelo atual permite que empresas estrangeiras transformem nossos dados em inteligência artificial, vendendo os resultados. O Singed pode inverter essa equação, criando um ecossistema onde startups acessam dados anonimizados para desenvolver soluções sociais; governos identificam necessidades em tempo real; cidadãos recebem serviços personalizados sem vigilância.

O potencial fica claro quando analisamos aplicações concretas: a prevenção de tragédias; o cruzamento de dados meteorológicos com mapas de vulnerabilidade social poderia ter alertado cidades gaúchas sobre riscos de enchentes semanas antes dos desastres. Oferece-se também a geolocalização de feiras livres e de áreas com insegurança alimentar, permitindo rotas estratégicas de abastecimento.

A saúde pública também pertence a este rol, integrando prontuários eletrônicos com dados ambientais; assim, revelam-se surtos de doenças antes mesmo dos primeiros sintomas. Para que esta visão se torne realidade, três avanços são essenciais: primeiro, quebrar os silos entre os 2.876 bancos de dados públicos hoje fragmentados em ministérios, autarquias e estados.

Uma governança multissetorial: conselho com participação de academia (para rigor metodológico); do setor privado (para eficiência operacional); e da sociedade civil (para controle social). É necessário que haja laboratórios de dados públicos em que startups e pesquisadores possam desenvolver soluções sem fins lucrativos.

O momento agora é esperar a implementação prevista para 2026, o Singed em um ponto de inflexão: 73% dos brasileiros desconfiam de como empresas usam seus dados; o mercado global de dados governamentais abertos movimentará US$ 334 bi até 2025. Países como Estônia e Uruguai já mostram que sistemas unificados reduzem desigualdades.

Esta não é uma discussão técnica, mas uma oportunidade histórica. Assim como o Sus garantiu saúde universal em um país continental, o Singed pode estabelecer um novo padrão global de democracia de dados. O desafio que fica é: como cada um de nós, cidadãos, empresas e gestores públicos, vamos participar desta construção? Porque no mundo digital que está por vir, dados não são apenas o novo petróleo, mas a nova moeda da cidadania.

Edmar Bulla é fundador do Grupo Croma e atua há mais de duas décadas nas áreas de inovação, comportamento, estratégia e design de futuros. Consultor de marcas líderes globais, conecta dados, cultura e estratégia para compreender transformações do consumo e dos mercados.

Publicado em: julho de 2025