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Varejo de proximidade ampliam papel no consumo e se consolidam como hubs de negócios

Por Edmar Bulla, fundador do Grupo Croma

CAPA PENDENTE — AGUARDANDO IMAGEM DA CROMA

O varejo de proximidade no Brasil está mudando de patamar e as padarias estão no centro dessa transformação. Podem até mudar de nome, mas nunca saem da rotina. Em São Paulo, é padoca. No Sul, é panificadora. Em outros lugares, mistura de mercearia, café, conveniência. Não importa como se chama, importa onde está. Todo dia, no caminho, na vida do consumidor.

O que antes era só abastecimento virou muito mais. As padarias deixaram de ser funcionais para se tornarem espaços de conveniência, experiência e relacionamento. E essa virada tem uma força clara por trás. O comportamento do consumidor. Ir à padaria, especialmente no começo do dia, continua sendo um dos hábitos mais consistentes do brasileiro.

Atualmente, 50% dos brasileiros costumam ir a padarias ao menos uma vez por semana e 30% duas vezes ou mais, segundo dados do estudo “Tendências de Consumo Alimentar” da Croma. É um ritual que envolve alta frequência, baixa ruptura e forte vínculo com a rotina. Essa previsibilidade – que a gente adora – cria uma base sólida para expansão de oferta e construção de valor.

Nos últimos anos, as padarias ampliaram significativamente sua proposta. Incorporaram novos serviços, diversificaram o mix de produtos e passaram a atender diferentes momentos de consumo, do café da manhã ao almoço rápido, do consumo imediato à compra por conveniência. Esse avanço reposiciona o canal dentro da jornada urbana, deixando de ser apenas ponto de abastecimento para se tornar espaço de permanência.

Sob a ótica do trade marketing, esse cenário abre oportunidades relevantes. Poucos canais reúnem, ao mesmo tempo, alta frequência de visita, proximidade geográfica e um ambiente de compra associado a conforto e familiaridade. Isso favorece a inovação e estratégias de ativação, experimentação e construção de marca em um contexto de maior receptividade.

Outro ponto central é o aumento do tempo de permanência. A padaria contemporânea estimula o consumo no local e se consolida como ponto de encontro informal. Esse comportamento amplia a exposição a produtos e mensagens, além de criar novas dinâmicas de interação entre consumidor e marca.

Há também uma dimensão territorial importante. As padarias refletem o perfil do entorno em que estão inseridas, adaptando sortimento, serviços e comunicação ao público local. Isso as torna um canal altamente relevante para estratégias regionalizadas e ações de comunicação mais aderentes ao contexto. Nesse ambiente, o protagonista da história, o pão francês, mantém seu papel estruturante. Continua sendo o principal driver de fluxo e um dos poucos produtos com presença transversal em diferentes perfis de consumo. Mais do que um item de compra, ele sustenta um hábito consolidado que ancora a relação do consumidor com o ponto de venda.

O que tem ocorrido com esses comércios é uma transformação estrutural na concepção desses espaços. Há, portanto, uma transição do modelo de padaria como ponto de abastecimento para algo que se torna essencialmente uma plataforma de experiência. Isso impulsiona o negócio, que adquire um peso estratégico, mudando a natureza do canal por meio do qual este tipo de atividade evolui em proposta de valor, deixando de competir por preço e conveniência e passando a disputar relevância e vínculo emocional.

A padaria já não é apenas um ponto de encontro informal, ela assume um papel mais amplo e relevante na vida das pessoas. Não se trata só de conveniência ou serviço, trata-se de significado. É quando o espaço deixa de ser transacional e passa a ser relacional, e isso muda tudo. O que antes era rotina agora ganha valor, o café rápido vira pausa, o pão de todo dia vira escolha, o ambiente vira experiência. É a valorização do cotidiano acontecendo na prática dentro do varejo de proximidade. No fim do dia, a padaria que cresce não é a que vende mais produtos, é a que constrói mais vínculo, porque não entrega só pão, entrega contexto, atmosfera e pertencimento. E é aí que mora o verdadeiro diferencial competitivo.

Edmar Bulla é fundador do Grupo Croma e atua há mais de duas décadas nas áreas de inovação, comportamento, estratégia e design de futuros. Consultor de marcas líderes globais, conecta dados, cultura e estratégia para compreender transformações do consumo e dos mercados.

Publicado em: março de 2026